Exercício de vestibular sobre romance regional

Neste artigo você poderá ler um texto romântico que tenho estudado com meus alunos. A prosa romântica tem quatro fases bem demarcadas embora sejam simultâneas. O texto abaixo é pertencente ao romance regional. Veja mais sobre o assunto aqui na seção de vestibular.

O desmaio

Em uma cena digna de uma novela de cavalaria, Arnaldo arrisca sua vida para salvar Dona Flor de morrer em um incêndio.
O incêndio, causado por alguma queimada imprudente, propagava-se com fulminante rapidez pelas árvores mirradas que não passavam então de uma extensa mata de lenha. […]

Do meio desse torvelinho, o dragão de fogo se arremessava desfraldando as duas asas flamantes, cujo bafo abrasado já crestava as faces mimosas de Dona Flor, e a revestiam de reflexos purpúreos.

Entre as duas torrentes ígneas que transbordavam inundando o campo e não tardavam soçobrá-la, a donzela não desanimou, e fez um supremo esforço para arrancar seu cavalo do estupor que lhe causava o terror do incêndio.

Negros rolos de fumo, porém, a envolveram, e sufocada pelo vapor ela sentiu desfalecer-lhe a vida. […]

O corpo desmaiado resvalou pelo flanco do baio, mas não chegou a cair. Um braço robusto o suspendeu quando já a fralda do roupão de montar arrastava pelo chão.

Apenas o sertanejo conheceu o perigo em que se achava a donzela, rompeu-lhe do seio um grito selvagem, o mesmo grito que fazia estremecer o touro nas brenhas, e que dava asas ao seu bravo campeador.

No mesmo instante achava-se perto da moça, a quem tomara nos braços. Para salvá-la era preciso voltar antes de fechar-se o círculo de fogo, que já o cin-gia por todos os lados com exceção da estreita nesga de terra por onde acabava de passar. […]

As duas trombas de fogo, que desfilavam pelo campo fora, se haviam encontrado, não frente a frente, mas entrelaçando-se, de modo que deixavam ainda, de espaço em espaço, restingas de mato poupadas pelas chamas.

Arrojou-se o mancebo intrepidamente nessa voragem. Estreitando com o braço direito o corpo da donzela cujo busto envolvera em seu gibão de couro, com um leve aceno da mão esquerda suspendia pelas rédeas o bravo campeador que, de salto em salto, transpôs aquelas torrentes de fogo, como tantas vezes sobrepujara rios caudalosos, abarrotados pelas chuvas do inverno. […]

Para rodear a coluna de fogo que lhe cortava o caminho da fazenda, teve o sertanejo de dar grande volta, que o levou aos fundos da habitação, completamente deserta nesse momento […]

Saltou o mancebo em terra sem esperar auxílio, e atravessando a varanda deitou o corpo desfalecido de D. Flor no longo canapé de couro adamascado, que ornava a sala principal.

Compôs rapidamente, mas com extrema delicadeza, as amplas dobras da saia de montar, para que não ofendessem o casto recato da donzela, descobrindo-lhe a ponta do pé, nem desconcertassem a graciosa postura dessa linda imagem adormecida. Com os olhos enlevados na contemplação da formosa dama, agitava como leque a aba do seu chapéu de couro, refrescando-lhe o rosto.

ALENCAR, José de. O sertanejo. 13. ed. São Paulo: Ediouro, s/d. p.14-15. (Fragmento).

1. Arnaldo é o herói regional desse romance: um bravo vaqueiro cearense. Que elementos do trecho mostram esse heroísmo?

2. Identifique os elementos regionais presentes na caracterização de Arnaldo e na apresentação do cenário.

■ Que traços da caracterização de Arnaldo permitem compará-lo aos cavaleiros medievais?

3- Que imagens são empregadas para indicar a força do incêndio que ameaça a vida de Dona Flor?

■ De que modo essa descrição contribui para reforçar a bravura de Arnaldo ao salvar Dona Flor?

4. Nos dois últimos parágrafos do texto, uma outra imagem de Arnaldo se apresenta: ele não age mais como o destemido vaqueiro. Que caracterização é feita do herói nesses parágrafos?

■ Arnaldo ama Dona Flor, filha de seu patrão. Que tipo de amor o rapaz nutre pela jovem? Explique.

Vocabulário:

Torvelinho: redemoinho.
Flamantes: com a cor da brasa, avermelhados.
Crestava: queimava de leve; tostava.
Purpúreos: de cor avermelhada, ígneas: relativo a fogo.
Soçobrar: perder a coragem, desanimar.
Flanco: lado.
Baio: cavalo de cor castanha.
Fralda: saia branca que se põe debaixo do vestido.
Brenhas: mata brava, fechada.
Campeador: cavalo usado para andar pelos campos em busca de gado.
Cingir: rodear.
Nesga: pequena porção de espaço.
Voragem: redemoinho.
Gibão: casaco de couro usado por vaqueiros.

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